Passeio em terras incas: Dos mitos à história
13/02/2008 - 10:00 - Inara Silva

Místico e sagrado se confundem com a história quando o assunto são as terras e a origem dos povos andinos. A trajetória inca e a imposição da colonização espanhola misturam fatos a mitos quando contados aos visitantes. Uma mescla que é notada por toda parte nas cidades incas, que recebem turistas de todo o mundo. A relação sagrada com a folha de coca, produto que tem venda proibida fora dos países andinos, o respeito à Pacha Mama (mãe terra), a surpreendente arquitetura, a curiosa agricultura inca e a espiritualidade imperam neste reino.

Em Cuzco, no Peru, por exemplo, a história pode ser tocada e percorrida nas ruas e nas paredes seculares. Cidade de estilo colonial foi capital do império inca e ainda preserva construções incaicas. Dotada de templos religiosos e fortalezas construídos com grandes pedras, Cuzco centraliza o fluxo de turistas que visita a região para conhecer sítios arqueológicos e ruínas históricas, como a famosa Machu Picchu, a cidade perdida dos incas, eleita uma das sete maravilhas do mundo moderno.

O primeiro contato com o visitante começa já com um misto de ritual de passagem. Tomar o chá de coca, além de ser uma das principais curiosidades do turista de primeira viagem, é uma espécie de porta de entrada para este mundo que fica a mais de 3 mil metros de altura acima do nível do mar. O chá, servido nas recepções de hotéis e passeios, chega a ser remédio necessário para enfrentar o mal das alturas, o soroche, que provoca náuseas e mal estar aos recém chegados. Por toda parte, o comércio alerta com escritos em lembrancinhas – adesivos, broches e camisetas – à venda: ‘a hoja de coca no es droga’ ou ‘a hoja de coca no es cocaína’. Mensagem que fica na mente do turista. A folha de coca tem uma simbologia diferente para os andinos. É com ela que muitos videntes lêem a sorte para os visitantes. Ela é também usada em oferendas em agradecimento à Pacha Mama.
A mistura entre mitos e fatos pode ser vista no próprio Museu Inca. O local reúne objetos arqueológicos que ajudam o visitante a entender a formação da região e apresenta a lenda na qual o casal de filhos de Inti – o deus sol, Manco Capac e Mama Oclo teriam emergido do lago Titicaca, na fronteira com a Bolívia, e seguido em busca de terras férteis, que resultou na fundação Cuzco. Os registros históricos apontam que Manco Cápac foi o primeiro rei de Cuzco durante o império inca, mas sua trajetória antes da fundação do império é desconhecida.

Ao visitar sítios arqueológicos, os turistas se surpreendem ainda mais ao conhecer relatos sobre construções de incríveis muralhas militares, centros astronômicos e templos religiosos. Tudo num formato arquitetônico impressionante, com sobreposições de pedras gigantes que chegam a toneladas de peso e que eram carregadas ao alto das montanhas por homens normais. O encaixe perfeito entre as pedras surpreende já que elas foram cortadas de forma minuciosa para garantir a aderência total uma a outra, sem o uso de argamassa. As hipóteses sobre as construções, seus terraços agrícolas e as técnicas de engenharia são diversas, mas todas impressionantes já que as edificações resistem a terremotos e à ação do tempo.

No Vale Sagrado, por exemplo, cortado pelo rio Urubamba, além de sítios arqueológicos encontram-se inúmeras vilas habitadas por famílias que se dedicam à agricultura. O vale recebeu este nome por ser dotado das terras mais férteis do Peru e, atualmente, é considerado um centro de pesquisa agrícola. A religiosidade da população pode ser observada nas pequenas casas vistas nas vias que dão acesso ao Vale Sagrado. Todas dispõem em seu telhado de pequenas estátuas de touros, um dos símbolos da fertilidade. Tudo em reverência à Pacha Mama, que é muito mais que o lugar. O homem não só vive na Pacha Mama, como faz parte dela. Ela representa a vida, pois é provedora do alimento e do abrigo, sempre auxiliada pelo sol e pela lua. E assim o ciclo da vida se renova com as estações do ano, a fertilidade, a vida, a morte e o renascimento.

Cuzco – Em princípio, Cuzco era chamada de Qosqo, que significa umbigo do mundo na língua quéchua. O umbigo tem uma simbologia de centro, no caso era o centro do império inca que abrangia áreas do Equador, Peru, Colômbia, Bolívia, Argentina e Chile. Atualmente, Cuzco permanece no centro, desta vez para o fluxo de turistas na cidade, considerada Patrimônio Cultural da Humanidade e Capital Arqueológica das Américas.

Na capital cuzquenha, o visitante pode perceber marcas concretas da existência bem sucedida dos incas. São prédios seculares feitos em pedras enormes, que sobreviveram às intempéries e ao avanço espanhol. O fato demonstra o poder da arquitetura do povo que viveu no local há séculos. Os colonizadores, representados por Francisco Pizarro, destruíram templos antigos e ergueram sobre eles igrejas e palácios cristãos. Com a colonização veio a imposição da religião católica em contraposição a adoração ao Sol, por exemplo.

A história viva de Cuzco e dos incas pode ser percebida a partir da praça central, a Praça das Armas, local que foi cenário de acontecimentos marcantes. Foi palco de celebrações incaicas e foi nela que o espanhol Francisco Pizarro anunciou a conquista de Cuzco. Quem visita Cuzco no século 21 constata que a Praça das Armas não perdeu seu poder de centralização. Nela, passam turistas de todas as partes do planeta em busca de orientações sobre hospedagem, restaurantes, passeios, atrativos e com muita curiosidade sobre o povo inca.

Observação: A viagem para Machu Picchu, no Peru, é um projeto de extensão do curso de História da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), coordenado pelos professores Carlos Augusto Ferreira de Oliveira – coordenador do curso – e Neimar Machado de Souza. Mais informações pelos telefones: (67) 9286 3993 e 9242 9135.

*Autora: Inara Silva, jornalista, mestre em Ciência da Informação e professora do curso de Jornalismo da UCDB.